domingo, 11 de abril de 2010

Cinemas de Belo Horizonte: recordações que constroem a história



Foto: http://www.vmcinebrasil.com.br

A história dos grandes cinemas de Belo Horizonte integra-se com a própria história de Belo Horizonte. Nos dias atuais, espaços como o Cine Brasil cederam lugar às pequenas e inúmeras salas de exibição dos “shopping centers”, mas ainda continuam bastante vivos na lembrança de muitas pessoas.

O primeiro espaço para exibição de filmes na cidade foi o Cine Comércio, na Rua dos Caetés. O cinema, inaugurado em 1909, acompanhava o clima de desenvolvimento da nova arte em outros estados, como Rio de Janeiro. A vida cultural de Belo Horizonte, a partir daí, estabeleceria uma relação estreita com a arte cinematográfica. Após as sessões, tornaram-se comuns os passeios descompromissados pelas ruas do centro da capital, hábito que passou a representar a sociabilidade dos belorizontinos.


Foto: http://www.vmcinebrasil.com.br
Na década de 30, o cinema era uma das formas de lazer preferidas dos moradores e visitantes de Belo Horizonte

Com o passar dos anos, o número de cinemas foi aumentando consideravelmente, mas somente em 1932 a capital ganharia uma de suas maiores salas de exibição, o “Cine Theatro Brasil”, que também estaria preparado para receber grandes apresentações de música e teatro. Reconhecido como patrimônio histórico e artístico, após o seu fechamento em 1999, o prédio, localizado na Praça Sete, permaneceu vazio e sujeito à ação do tempo durante quase dez anos.

MEMÓRIAS O Cine Brasil faz parte da história pessoal de muitos moradores da cidade. José Eduardo Lopes, advogado e jornalista de 69 anos, conta que, na década de 50, o cinema também funcionava como um bandejão. “Havia uma guarita. Nós pagávamos um preço muito barato e entravámos pra comer uma refeição de primeiríssima qualidade”, lembra. Ele se recorda da bomboniere do cinema. “O local só era frequentado por pessoas com maior poder aquisitivo, mas eu também visitava pra me fazer de rico”, conta, bem-humorado. O advogado também relata as brincadeiras comuns na juventude, durante as sessões no Cine Brasil. “Quando assistíamos filmes da ‘Paramount’, aparecia uma águia na tela. Ficávamos nos últimos lugares do terceiro andar e antes de ela voar, fazíamos barulho para espantá-la. Todo mundo no cinema gostava”, diz.

Foto: Vinicius Rocha
José Maria Tadeu:
"O Brasil foi o maior e melhor cinema de Belo Horizonte"

O aposentado José Maria Tadeu, de 63 anos, lembra-se, emocionado, da época em que o Cine Brasil ainda era um prestigiado ponto de encontro da cidade. “Quando cheguei em Belo Horizonte em 1959, esse era o maior e melhor cinema da cidade. Eu vinha aqui todo fim de semana pra assistir filmes. Só tenho boas recordações”, conta. Segundo o aposentado, no lugar aconteciam paqueras e encontros amorosos. “Aqui na praça, existia uma passarela. A gente comprava os ingressos e esperava a menina chegar”, relata. José também se recorda do filme que mais lhe marcou: “Europa de noite”. “Era proibido para menores de 18 anos e eu tinha 14. Tentei entrar várias vezes, mas não passava. Quando consegui entrar, foi pra ver um ‘shortinho’ dois dedos acima do joelho”, relembra.

As boas lembranças não são privilégios da população idosa. Cinemas como o Brasil, Paladium, Jacques e Odeon marcaram, por exemplo, a infância do analista de sistema Carlos Eduardo Salgado, de 31 anos, que, desde os 7 anos já assistia sessões com uma tia e, a partir dos 11, passou a ir sozinho. “Tenho saudades dessa época, quando os lanterninhas nos guiavam quando chegávamos atrasados. As grandes salas nos proporcionavam uma sensação diferente das salas de shopping. Era algo mais cultural, com menos interesse na arrecadação”, opina. Movido pelas recordações, Carlos fala sobre o final de uma sessão no Cine Paladium que ficou marcada. “Foi uma das poucas vezes em que vi o público bater palmas em uma sala de cinema”, ressalta.

Clique no player para ouvir a versão em áudio da matéria



Leia também: